domingo, 18 de agosto de 2019

105 KM que Conduzem à Realização de um Sonho


105 KM que Conduzem à Realização de um Sonho


Licia Maria Andrade de Carvalho Magalhães
(Mestranda em Crítica Cultural/UNEB, turma 2019.1)

Em 2004 concluí a graduação em Letras Vernáculas na UFBA e já acalentava o sonho de cursar um mestrado, pois já frequentava o grupo de pesquisa, coordenado pela Profa. Dra. Florentina Souza, “Etnicidades — História e Memória de Afrodescendência”, no qual pesquisei questões de identidade no compositor e cantor paraibano Chico César e depois a cidade de Salvador na obra contística do escritor baiano Aramis Ribeiro Costa. A pesquisa me encantou, me arrebatou, bem como as leituras para a composição do referencial teórico.

Tentei algumas vezes o ingresso no mestrado na UFBA e também na UNEB, mas não ingressei, parecia que o tempo, o Universo, me preparava para hoje estar no Pós-Crítica/UNEB, Campus II — Alagoinhas.

Em 2018 a Profa. Dra. Suely Messeder fez contato comigo convidando-me a participar do I Encontro de Produção, Gestão e Difusão do Conhecimento, como representante do Colégio Estadual de Monte Gordo, do qual era gestora. Conversei com as equipes gestora, docente e Grêmio Estudantil e todos aceitaram participar e o evento foi muito proveitoso.

Através deste contato e da realização desta atividade, a Professora Suely me convidou para frequentar as reuniões do Enlace — Núcleo de Pesquisa. Em contato com os membros do grupo e as discussões empreendidas, o sonho de cursar o mestrado foi reaceso.

Assim, num momento difícil, pois minha mãe idosa ficou doente e internada, sou a caçula de três filhos e única mulher, com o incentivo de Suely, de minha filha Maria Clara Magalhães, do meu filho Pedro Magalhães e de Fabiane Guimarães, colega do Enlace e aluna do Pós-Crítica, me inscrevi para participar da seleção deste Programa.

Durante todo o mês de outubro, enquanto minha mãe estava internada e eu de acompanhante, era produzindo o anteprojeto e estudando os textos indicados para a seleção. Isto me marcou muito positivamente, era o tudo ou o nada. O momento era aquele e não havia espaço na minha cabeça para pensar em trabalho, sou professora de Português no estado e no município de Camaçari, ou pensar no fato do curso ser ministrado em outra cidade. As atenções eram para minha mãe e para a seleção.

Foram cinco etapas, uma grande expectativa a cada resultado. A cada lista a ansiedade dobrava. Documentação, análise do anteprojeto, prova escrita, prova de língua estrangeira e entrevista. Ver meu nome na lista final foi uma felicidade indescritível, pois foi a realização de um sonho.

Fica para mim e digo para as outras pessoas, que sonhar vale a pena, pois em algum momento a realização acontece.

Hoje, cada encontro com docentes, com colegas, novos afetos, cada texto, discussões me dão a certeza de que vale muito a pena os 105 km percorridos semanalmente. Toda a preparação para a ida é motivada pela convicção de que escolhi o programa certo, pois fui aprovada também no ProfLetras/UFBA, e me dá uma grande satisfação pessoal.

Ser uma Crítica Cultural é estar com os sentidos aguçados para a percepção do mundo de forma mais lúcida e coerente, porém sem deixar a leveza, sem impedir o nascimento de novos sonhos e mais intensa para trilhar outros caminhos.

Toda a dedicação da equipe docente, da equipe administrativa me faz sentir no lugar certo. O tratamento dispensado por estas equipes nos faz sentirmos especiais e com o desejo de produzir e seguir adiante.

São 10 anos do Programa, parabenizo e desejo vida longa e que todos nós possamos fazer a diferença no meio acadêmico e nos outros meios que permeamos.


O Crítica Cultural não é uma Crítica Cultural


O Crítica Cultural não é uma Crítica Cultural


Fagner Costa e Silva
(Graduado em Letras e Filosofia; Mestre em Crítica cultural/UNEB;
Docente da Faculdade Ages de Tucano)

“A crítica cultural não é uma crítica ‘cultural’” (JUSTINO, 2015, p. 11). Para quem deseja adentrar nos estudos pautados pela crítica cultural, a afirmação em destaque é no mínimo frustrante. Luciano Barbosa Justino (SANTOS, 2015), ao prefaciar o livro Primeiros passos de um crítico cultural, de Osmar Moreira (2015), explica sobre a composição da área, não se fechando em nenhum conceito clarividente, utiliza um procedimento metodológico no qual deixa as definições trabalhadas sempre abertas.

Duas outras pensadoras corroboram com tal procedimento na tentativa de elucidação do que seria a crítica cultural: Eneida Maria de Souza (2012), que, embora elenque em seu texto Crítica cultural em ritmo latino-americano modos de atuar na área, suas origens e até seus princípios metodológicos, também não fecha a definição do espaço crítico cultural. Nelly Richard (2005), reconhecida estudiosa do campo, fala em seu texto sobre o caráter pluridisciplinar e muticultural da área, e, por sua vez, deixa os conceitos que poderiam se referir ao universo de estudo da crítica cultural, também, em aberto.

Quando desembarquei em 2016 como aluno no Mestrado em Critica Cultural em Alagoinhas, uma das minhas primeiras busca como pesquisador foi tentar compreender melhor o conceito do campo que batiza o programa. De início, confesso que me senti bastante frustrado. Por um lado, não conseguia encontrar a essência (quanta inocência) do conceito no mapeamento das falas dos professores e, por outro lado, muitas vezes, encontrava, inclusive, uma oposição conceitual na definição da área.

Julgava que a busca em tentar entender o conceito de crítica cultural era o primeiro passo consistente para se constituir como mestre da área, estas indefinições do conceito no programa e uma esquiva generalizada em não se autorrotular me causava muito desconforto. Queria, como Hegel, encontrar o espírito absoluto da coisa, resumir o que vinha estudando em um conceito.

A tradição da teoria da literatura a que estava vinculado, positivista, filológica, por mais que se pintassem como pós-modernos, exigia o conceito para alicerçar o objeto de trabalho. E eu, vinculado aos meus mestres de outros centros de estudos, achava importante ter uma perspectiva crítica cultural para escrever uma dissertação em um mestrado que leva o nome da área.

Entre buscas e rizomas não consegui fechar tal conceito, não cheguei ao fim do curso com êxito na procura de um verbete satisfatório para o campo de estudo. Talvez encontremos alguns, que poderiam satisfazer minha postura pré-crítica, mas, ao contrário do que a área dos estudos literários, que tem seu método de trabalho autoexplicativo em seu nome, nesse cenário, os espinhos são constantes para descrever sua atuação e, mesmo figuras que dedicam sua vida há muito mais tempo do que eu a este campo, reconhecem a dificuldade que é manusear este conceito, observemos o que o professor do programa Roberto Henrique Seidel nos diz:

Não se pode considerar o conceito de crítica, nem tampouco o de crítica cultural como auto-evidentes, uma confusão mental prontamente se estabelece [...] Essa confusão pode ser explicada parcialmente por conta do adicional do adjetivo “cultural”— visto a própria noção de cultura estar longe de ser consensual (SEIDEL, 2008, p. 1).

Procurei aqui e ali, observei os protagonistas de muitas definições, passei por muitos teóricos, anotei apressadamente as tentativas de conceituações dos professores e ficava cada vez mais confuso.

O insite para minha busca encontrei em uma viagem de volta para casa, em algum lugar do trecho entre Alagoinhas a Euclides da Cunha, esparramado de cansaço na poltrona do ônibus, com fones nos ouvidos, Raul Seixas (1974), como um sábio profeta me diz: “Tem gente que passa a vida inteira travando uma inútil luta contra os galhos, sem saber que é lá no tronco que esta o coringa do baralho”.

Era isso, antes de chegar aos fins era preciso compreender a engrenagem que movimenta o funcionamento da área e, se chegarmos a um consenso sobre o campo (ou se formos aos galhos), ele pode limitar estudos de novos objetos da cultura. A perspectiva de estudo pautada no campo da crítica cultural se assemelha à ideia de Trotsky sobre revolução permanente, temos que nos ressignificar constantemente; a crítica cultural é nutrida pela transdisciplinaridade e a progressão das disciplinas que compõe seu corpo inevitavelmente contribui para o desenvolvimento de sua sistemática; portanto, encontra-se sempre em transformação, e cabe a seus membros acompanhar tais mudanças. 

No decorrer no curso, depois de muitas aulas assistidas, tendo acesso a inúmeros teóricos, misturando as citações, sintomas de dejavu em diferentes leituras de diferentes componentes curriculares, se aprofundando em determinados temas, conhecendo a superfície de outros, se destaca uma impressão quase constatada: A política no campo teórico-acadêmico no programa em Crítica cultural da UNEB é encarada de maneira concreta e, assim como nos estudos culturais, ela mescla-se com a teoria (SOUZA, (2012); trata-se de uma disciplina de ação, que procura entender como o conhecimento produzindo nas discussões em sala de aula poderá mudar a realidade fora dela.

De maneira muito particular, isso foi o que mais mexeu comigo: tentar unir meu trabalho teórico com uma prática de ação. Parti desta inquietação e tracei como objetivo de pesquisa a seguinte proposição: “Como meu projeto, genuinamente teórico e pautado em um texto ficcional, poderia se transformar também um projeto político e de ação?”.

Encontrando-me no “tronco da arvore”, segui algumas pistas, como um caçador faz com sua presa (GINZBURG, 1989), exclui e aceitei muitas hipóteses, tentei superar obstáculos epistemológicos que surgiram no caminho (BACHELARD, 2005), busquei frestas de sombras nas luzes do tempo da pesquisa (AGAMBEN, 2009) e através delas tentei vislumbrar um processo de análise para um objetivo de pesquisa, que, ao mesmo tempo, possa ter um viés político e estético. Tentei seguir um caminho que se debruçasse sobre a composição da obra artística, procurei enxergar as singularidades do autor enquanto produtor do texto, ao tempo em que analisa as particularidades com o social, com o local em que a obra foi produzida, com as denúncias que fez ou deixou de fazer, e tentar comparar o cenário em que o documento/obra foi concebido com os dias em que a pesquisa foi elaborada.

Acreditava que havia encontrado um percurso sólido depois que já havia construído meu mapa metodológico e teórico para a escrita, que, como minha pesquisa pedia, este percurso era genuinamente teórico, mas a vivência com os membros do Crítica Cultural sempre me guardava outras surpresas. Fui do céu ao inferno! Mas me pergunto: Qual estudante de pós-graduação no Brasil não foi? Alguns em menor outros em maiores intensidades. Descobrir que o sofrimento e a dor faz parte do processo de produção.

Problemas em minha vida particular eclodiram em proporções que jamais havia experimentado, tive que me reinventar como ser humano e descobri uma saída para um labirinto que não sabia que habitava em mim. Foi esta a segunda chave que me fez emergir no universo da crítica cultural, experimentar a construção de um trabalho intelectual com minha matéria passando por um turbilhão de problemas e dilemas, com um sofrimento e uma crise existencial que jamais sentira antes. Precisei inverter e desconstruir minha lógica de produção, foi só quando senti o peso do mundo nos meus ombros que pude, com respaldo, começar a discorrer sobre experiência, autobiografia e autoficção.

Além dos problemas particulares, o país também passava por uma crise política, a qual afetou fortemente todos os envolvidos no programa. O golpe sofrido pela presidenta Dilma Roussef nos abateu, nos consolávamos mutuamente e tentávamos em nossas lamúrias encontrar uma saída para aquele desfragmento da democracia brasileira. Fosse no apartamento que dividia com os colegas Edivanio e Marcelise ou no campus da UNEB com os professores e os outros membros da turma, um misto de tristeza e desilusão tomou conta dos mestrandos de 2016; mas apesar de todo este trauma coletivo, sorríamos, não sei explicar ao certo, mas o riso era uma das nossas marcas mais fortes.

Sartre diz que o “silêncio é reacionário”. Comecei, diante de todos os acontecimentos que pairavam no período, a pensar que seria reacionária qualquer atividade intelectual produzida no Brasil naquele período que não levasse em conta o cenário político que o país atravessava. Seja qual tema fosse abordado, tínhamos o dever histórico de alertar os nossos leitores sobre o risco que corria o estado de direito e todas as conquistas sociais alcançadas nas últimas décadas. Meu trabalho, que a priore se privava destas críticas, mudou de direção. E mesmo discutindo fatos de um passado e de uma perspectiva teórica, busquei, no período em que as obras que estudava foram produzidas, uma fresta para compreender o tempo presente.

Foi inevitável não modificar o olhar sobre o meu objeto de pesquisa, influenciado por teóricos estudados em sala de aula, nas discussões com os colegas ou nas retóricas dos professores. Minha perspectiva de trabalho transformou-se, partindo dos estudos literários para a crítica cultural, não chamaria de uma migração completa, já que parte significativa do alicerce teórico se encontra nesta primeira área, não pretendo abandoná-la, refutá-la ou negá-la, talvez criticá-la em alguns pontos, mas minha intenção é contribuir com sua ressignificação em algumas proposições e associada à teoria presente na área da crítica cultural, de fazer uma análise precisa dosando elementos políticos e teóricos.

Esta dosagem foi talvez a melhor coisa que aprendi no Crítica Cultural, além da ideia de busca. O professor Washington me instigou para buscar os “restos” da cultura; Felix a buscar os fragmentos que a ascensão de certas culturas deixa para trás; Osmar a buscar viver e não só conceituar política; Jailma a buscar a alteridade no outro; Neuma a buscar na indignação um sentido para continuar lutando e pensando; Berenice a buscar na educação um sentido de vida; e Seidel, a buscar em mim a chave para minhas angústias e para minha liberdade.

Me transformei em dois anos que me envolvi com o programa. Não digo isso porque adquiri um título de mestre, mas porque aprendi a ser mais humano e comprometido com o papel que um intelectual deve ter com o mundo em que vive. A felicidade e a dor de se iniciar na pesquisa de stricto sensu faz com que não sejamos mais os mesmos; inevitavelmente ficamos mais conscientes de nós mesmos e é esta consciência nos dá força e medo.

A respeito da minha primeira busca, continuo no caminho e acredito que, como certeza palpável, apenas inverti a dialética de procura. Não adoto mais a totalidade de uma perspectiva idealista de procura, na qual o fim é o conceito. Aprendi a trilhar também um viés da matéria, em que o conceito serve para mudarmos as coisas que estão ao nosso redor. Hoje sei que o Crítica Cultural não é uma crítica cultural, talvez até saiba o que ela possa significar, só não posso ousar a conceituar, pois o que a crítica cultural e o Crítica Cultural significam para mim, vai além de elaborações de linguagens, são partes de mim e sou parte deles, não me ousaria conceituar para não perder o encanto. 

Referências:
AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da historia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Trad. Vinicius N. Honesko. Chapecó: Argos, 2009.
AGAMBEN, Giorgio. O homem sem conteúdo. Belo Horizonte. Autêntica, 2013.
BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Introdução: Rizoma. In: Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Ana Lúcia Oliveira. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 7-37.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
FONSECA, Rubem. José Rubem Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
FONSECA, Rubem. O romance morreu: crônicas. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. 1ª reimpr. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.
JUSTINO, Luciano. Apresentação. In: SANTOS, Osmar Moreira dos. Primeiros passos de um crítico cultural. Salvador. EDUNEB, 2015.
RICHARD, Nelly. Globalización académica, estudios culturales y crítica latinoamericana. In: Cultura, política y sociedad: Perspectivas latinoamericanas. Daniel Mato. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. 2005, p. 455-470. Acceso al texto completo:  http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/grupos/mato/Richard.rtf.
SANTOS, Osmar Moreira dos. Primeiros passos de um crítico cultural. Salvador. EDUNEB, 2015.
SEIDEL, Roberto H. Crítica cultural, crítica social e debate acadêmico e intelectual. Revista de Linguagem, Cultura e Discurso, ano 5, n. 9, jul.-dez. 2008. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/4998460.pdf.
SOUZA, Eneida Maria de. Tempo de pós-crítica: Ensaios. Belo Horizonte. Editora UFMG, 2012.
WILLIAMS Raymond. Definindo uma cultura democrática. Trad. Maria Elisa Cevasco. In: Recursos da esperança. São Paulo: Editora Unesp, 2014, p. 3-58.


10 Anos de Pós-Crítica


10 Anos de Pós-Crítica


Cleane [Cleo] Medeiros
(Mestranda em Crítica Cultural/UNEB)

Eu sou Cleane Medeiros, mestranda em Crítica Cultural. Entrei no primeiro semestre de 2018.

Lembro que a cada etapa que eu passava, minha alma fazia uma festa. O Pós-Crítica entrou em minha vida antes mesmo de eu saber a posição geográfica de Alagoinhas. Terminei a graduação em História na UNEB de Jacobina e, quando fui pensar em Mestrado, pensava fazer em Teatro. Quando li o edital e passei as vistas nos trabalhos dos professores do Pós-Crítica eu fui seduzida. Fui lendo-os e sentindo que havia encontrado o lugar que eu queria.

Quando li A luta desarmada dos subalternos, do professor Osmar, houve catarse e, aí, eu não olhei mais nenhum edital e comecei a escrever o meu projeto.

Findadas as etapas do processo seletivo, eu fiquei fora da cota de bolsas, e meu Sertão é muito longe. Não haveria condições de permanência. Contudo, mesmo com todas as dificuldades, em nenhum momento eu pensei em desistir. Consegui uma barraca e montei no Quiósque do Campus. Vendia meus livros, pintava camisas e nos momentos em que as coisas ficavam mais difíceis eu encontrava apoio dos colegas e até de professores que sabiam de minha luta. Alguns me davam alimentos, outros, produtos de higiene pessoal... me senti acolhida! Me sinto incapaz de traduzir em palavras o que senti. Uma força que eu não sei descrever me fazia devorar os textos programados com mais fome do que a fome por comida, ora dentro da barraca, ora na trilha que dá uma volta no campo de futebol e, quando eu não entendi o que Deleuze disse do estruturalismo, eu pensei: “ele foi capaz de escrever. Eu posso ser capaz de compreender”. Na caminhada estilo Zaratustra com o texto na mão, eu lembrava de onde vim, e, agora, que eu já sabia o que significava violência epistêmica, a vontade de saber parecia maior. Parecia que eu queria redimir alguma coisa. Eu sou povo, sertaneja, mulher, e, contra as evidências, uma intelectual capaz de ler o que se esconde nas sombras do meu tempo. Nas aulas, debates calorosos, estimulantes e perturbadores. Hoje, estou na fase mais solitária, na escrita da dissertação e logo concluirei essa etapa, podendo dizer com grande satisfação que não foi somente de conteúdo do que me preenchi. Há coisas que as palavras ainda não expressam.

Contudo, posso dizer que trago comigo a gratidão por todo apoio daqueles que me ajudaram, e, sobretudo, a inquietação ainda mais viva e latente que antes, a qual só me deixará parar quando eu morrer. Viva o povo brasileiro! Os negros, os indígenas, os sertanejos, as mulheres,  LGBTQ+! Viva as pernas longas e infindas que se ramificam quebrando os vidros da subalternidade! Viva o Pós-Crítica!

Carta ao Pós-Crítica


Carta ao Pós-Crítica


Juliene Cristian Silva Pinto
(Mestra em Crítica Cultural/UNEB)

Entre Rios, 11 de agosto de 2018.

Aos mestres do Pós-Crítica, com carinho

Criatividade. Competência. Pesquisa. Sucesso Profissional. De certo, esses quatro pilares foram conquistados ao longo da minha vida acadêmica, nos sete anos passados, desde o ingresso no Curso de Licenciatura em Letras, Língua Francesa e Literaturas, pela UNEB, sob à luz dos primeiros meses de 2012. Considero o salto dado, após a conclusão do referido curso, direto para o Mestrado em Crítica Cultural, como um divisor de águas, que potencializou, sobremaneira, tais aspectos. Inclusive, por ter somado o aprendizado adquirido na Iniciação Científica (2013-2015), junto à Profa. Edil, aos encontros com o grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Osmar.

Em minhas mãos, de negra-índia (e pianista, como ouvi certa vez), há uma lupa ampliada capaz de visualizar barbáries, máculas e feridas nos corpos das minorias. No entanto, se o sistema opressor, em sua vontade de poder, dispara uma máquina demolidora — munida pelo capital financeiro e humano —, mapas precisam ser traçados, e estratégias estético-políticas acionadas a fim de combatê-lo. Talvez essa foi a maior lição adquirida, nesse tempo de formação, no Pós-Crítica, não a mais importante, obviamente, mas a que me toca com paixão.

Mais crítica e atenta às versões da história oficial, e ao agenciamento político e epistêmico das minorias, sigo numa estrada de curvas sinuosas, sem medo de fazer uso do arsenal teórico-metodológico ensinado pelos professores Osmar e Neuma, no primeiro ano de ingresso ao curso. Confesso que, mesmo preferindo a literatura até o infinito, fui tomada pelo charme da linguística emanado das aulas de Metodologia da Pesquisa em Crítica cultural. Pausa para um segredo: pela primeira vez li Derrida.

As professoras Nazaré e Lícia me convidaram a levar as várias linguagens para a sala de aula, como meio de fazer identificar e barrar o esquecimento institucional das minorias, visto que o espaço escolar é um laboratório sem precedentes para o agenciamento do pensamento. Os professores Félix e Washington tornaram evidentes, entre outras coisas, as origens dos estudos culturais, as versões de cultura, o si e o abjeto. Conheci Adorno, Horkheimer e Lacan. Revisitei George Bataille.

Com o Prof. Seidel fiquei convencida — por meio de exercício profícuo — da possibilidade de comparar obras distintas, em seu conteúdo temático, ou mesmo relacionar teorias em busca de aproximações, complementariedades e distanciamentos. Sobretudo, que devo encarar meus medos, ler mais em espanhol e tentar um intercâmbio, já que adoraria conhecer o mundo.

A Profa. Jailma me ajudou a ser mais atenta à lógica da indústria cultural, e perceber a potência do sistema comunal e solidário. Além do contato com esse arcabouço teórico diferenciado, pelos tantos artigos escritos e publicadas, resultados do trabalho desenvolvido nas disciplinas, renovei meu repertório vocabular, o que interferiu de maneira positiva no domínio da modalidade formal da Língua Portuguesa.

O Programa também me tornou uma mulher mais decidida; cada vez menos tímida. Um ganho simbólico altamente aceitável. Acabo de me desligar do curso, isto é, cumpri os créditos e alcancei aprovação na defesa. Mas, me sinto parte dele como se eu fosse uma de suas ramificações poderosas. Não por outra razão, há muito o que agradecer por tudo que registrei, aqui, e pelas portas e janelas que se abrirão doravante (concursos, aulas na graduação, minicursos, palestras, intercâmbio, etc.).

Profissionalismo e humanidade são as palavras de ordem, que me fazem lembrar com carinho dos professores que tive. Deixo um agradecimento especial a meu orientador, Prof. Osmar, que me direcionou de maneira singular. Por meio de seu olhar atento, pude desengavetar a pesquisa, defendida na graduação, e avançar no sentido de analisar os modos estético-políticos dos indígenas brasileiros superarem as ordens de despejo ontológica, territorial e linguística. Trata-se de um estudo, decididamente, a ser continuado no Doutorado.

No mais, parabéns ao Pós-Crítica pelos 10 anos de “dever cumprido”, e à equipe docente pela experiência rica e energizante que pôde me proporcionar.

Cheia de saudades,

Juliene Cristian Silva Pinto (Egressa da turma 2017.1).

A Mulher Que Criticava (crônica)


A Mulher Que Criticava (crônica)

Elisabeth Amorim
(Mestra em Crítica Cultural/UNEB)


Não era uma vez, nem Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, Gata Borralheira entre outras celebridades que povoam as cabecinhas das crianças que acreditam que nas horas de perigo aparecerá um caçador corajoso e abrirá a barriga de um Lobo Mau e tirará duas pessoas de dentro sem nenhum arranhão. Talvez, as garotinhas mais faceiras ficam à espera de um príncipe desencantado para tirá-las dos caixões de vidros que aprisionam suas infâncias e saiam galopando campina abaixo.

Sinto informá-las, garotas! Mas não se fazem mais príncipes como antigamente... Quando perceberem que os caçadores não andam mais nas florestas à caça de lobos maus, teremos um país mais consciente. Houve uma metamorfose e a transformação foi geral, alcateia urbana passa a conviver com humano desatento. Ninguém mais quer saber de espingarda, afinal o porte de arma foi liberado, mas onde não estão os lobos? Camuflados nos auxílios paletós, escondidos entre os gabinetes podem até passarem despercebidos, isso se não abrirem a boca diante de um microfone. Que pena! Caixões não são de vidros, beijos não ressuscitam e são necessários muito mais de doze badaladas para que a magia desaconteça. Acordem para luta, Cinderelas! Cem anos de solidão ou Ensaio sobre a cegueira?

A Mulher Que Criticava olhava tudo ao seu redor e a imagem da porta de Vinícius de Moraes era uma constante: “Eu sou feita de madeira/ Madeira, matéria morta/ Mas não há coisa no mundo/ Mais viva que uma porta...” Nascera com um parafuso a mais ou a menos, isso era o que ela ouvia, porém, nunca processava. Assim, como a “porta”, A Mulher Que Criticava era dura, matéria humana, resistente e persistente. Nordestina traz na veia uma força estanha que me leva a cantar. Como decidira ser professora ela dava passagem para muitos. Uns passavam por ela devagarinho, com direito às recuperações e aos empurrões básicos dos Conselhos de Classes, outros de supetão mesmo, correndo sem querer olhar para trás. Talvez, para não serem capturados e servirem de cobaias, repetindo ano após ano a mesma série, para “aprenderem a lição”. É fato, se não há mudança de um lado, não tem como esperar resultado diferente. A Mulher Que Criticava não gostava desse tipo de experiência, protestava nos conselhos, reivindicava, não a reprovação, mas a transformação para que a reprovação não precisasse voltar a ser pauta das reuniões. Mas, quem era ela para transformar alguma coisa? Ela era uma simples Mulher Que Criticava.

Como todas as mulheres, ela tinha um sonho, que não envolvia príncipes nem princesas, mas no seu castelo construído a duras penas, era povoado de livros. Ela tinha fome de livros. Ela tinha sede de saber. Ela queria conhecer pessoas que “tinham” parafusos a mais ou menos, iguaizinhos a ela. Não era assim que muitas pessoas identificavam as “mulheres leitoras”, “CDF” ou simplesmente “estudiosas” como se elas fossem estranhas?

“Estranha” ou não, muito cedo A Mulher Que Criticava entrou na lista, não por merecimento, ela não era tão leitora quanto desejava ser, mas lia, engolia... não era bem assim, lia, via, ouvia, mas nem tudo ela engolia. Vomitava quando necessário, e a cada vômito, o ambiente ia se modificando lentamente, quem disse que seria fácil? Sabia que às vezes para ser ouvido é preciso colocar para fora o que está engasgado em prol de uma convivência mais saudável e crítica? Era desse jeito que ela conseguiu se fazer ouvir na escola em que trabalhava. Quando tapavam os ouvidos para não ouvi-la, A Mulher Que Criticava conseguia uma linha de fuga, aliava-se aos alunos, eles fazem mais barulho, e a sala de aula, em um laboratório era transformado. As experiências mais mirabolantes possíveis aconteciam, e não tinha o “Aladim com a sua lâmpada maravilhosa” para realizar os sonhos de conhecer obras de Jorge Amado, Herberto Sales, Dias Gomes... num passe mágico! As táticas inventivas do cotidiano, impreterivelmente, passavam pelos caminhos da leitura.

A leitura para A Mulher Que Criticava era sua paixão, ela começara cedo, desde criança ela passou a ter contato com os livros de contos e poesias. Isso porque o seu pai tinha o hábito de acordar os filhos declamando poesias de Drummond, Bilac e Castro Alves. Seus irmãos detestavam aquela “mania” do pai, mas para A Mulher Que Criticava, aquele período marcara não só a leitura do dia, mas as primeiras impressões das leituras literárias na sua vida. Quem é o autor, pai? Quando ele escreveu esse texto? O que significa tal palavra? (— Pare! Que menina curiosa! Vamos, leia esse livro, a poesia de hoje está aqui!) E cada um com suas manias, não é mesmo?

Inicialmente, A Mulher Que Criticava olhava para aquela “porta” e dizia, a minha “porta” não terá matéria morta, porque a literatura é viva, vibrante, poderosa, rompe os muros e nem adianta construir novos muros, imitando o de Berlim, diante da força dos subalternos... armas? Informação, crítica e ação. Sentia que precisava ir além da pedagogia. Sabia da existência de oprimido, esperança, autonomia... Saber das pedagogias de Paulo Freire só, não mudaria o mundo da Mulher Que Criticava, ela precisava ir além para saber o que fazer com todo o pacote acumulado durante a sua caminhada.

E com esse pensamento que A Mulher Que Criticava saiu batendo nas portas de algumas universidades. Mas de tanto ouvir até de seus alunos sobre a proposta ser “meio louca” de uma tal desmontagem literária como linha de fuga para não ser capturado, que A Mulher Que Criticava chegou a pensar que estava com parafusos soltos mesmo, não iria mais mostrar “suas experiências literárias” a mais ninguém, se não havia quem acreditasse que isso era possível. Nordestina é forte! A Mulher Que Criticava rasga, costura, corta, reconstrói... tece novos fios, desfaz outros desconstruídos. O que é a vida sem passarmos pelas obras de arte? O que é obra de arte sem as pinceladas da vida? Eis A Mulher Que Criticava num Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural!

O sonho de continuar os estudos se concretizando! Sonho de ser Mestra em Crítica Cultural! Êxtase, encantamento, medo, muito medo! Quantas vezes A Mulher que Criticava passara por situações semelhantes? Lembrou de Fabiano de Vidas secas (Graciliano Ramos) que falara ao ser lesado injustamente, e ao reclamar do patrão foi ameaçado de ser demitido.  Mas, com A Mulher que Criticava tudo foi diferente, tão diferente que ela se sentia à vontade que se aventurou a mostrar uma das suas táticas inventivas literárias, foi o fim do seu esconderijo.

Desde então ela agarrou Foucault a assumiu de vez a nova ordem do discurso. Sim, A Mulher que Criticava depois de exibir no seu status “mestra em crítica cultural”, é convidada para eventos, talvez com o intuito de não criticá-los. Organizadores não sabem a extensão do poder de um Crítico Cultural. A Mulher Que Criticava percebia o estado de exceção escancarado e com dentes arreganhados, pronto para engolir quem estiver na frente, sem chance alguma de um caçador tirar alguém com vida, após o processo dolorido e lento da mastigação. A Mulher Que Criticava sorriu daquele seu pensamento, voltou para Crítica, Deleuze, Seidel, Osmar, Jailma, Anória, Ari, Barthes, Guattari, Edil e os nomes iam pipocando em sua mente, juntamente com a frase “Parabéns a vocês!”, os signos iam pi(po)cando de tal modo que A Mulher Que Criticava, ao ouvir o chamado da crítica numa ação comemorativa pelos seus dez anos de existência, pegou a sua própria arma escreveu: — Subalternos também sabem lutar!


Quando uma Crítica Encontra a Outra...


Quando uma Crítica Encontra a Outra...

Ivânia Nunes Machado Rocha
(Mestre em Crítica Cultural/UNEB, Doutoranda em Teoria da Literatura/UFSE)


Então, no final de 2013  início de 2014, eu era uma mulher madura, aos 40 anos de idade: casada, com 2 filhos adolescentes passando por uma fase extremamente difícil; trabalhando 40 horas semanais em uma escola pública da educação básica; e morando nos confins do interior da Bahia  numa terra esquecida por Deus.

Já tinha cursado a Licenciatura em Pedagogia e feito uma especialização em Gestão Educacional; em seguida, cursei também de modo presencial uma Licenciatura em Letras com habilitação em língua Portuguesa e Literaturas. Logo após o Curso de Letras, engatei uma pós-graduação em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literaturas. Não havia mais nada que eu pudesse cursar além disso num raio de 400 km.

A rotina casa  trabalho  filhos  marido, regada a inúmeros problemas e dificuldades, estava me esgotando. Meus filhos estavam estudando fora e ambos estavam passando por um período de depressão grave. Eu e meu companheiro vivíamos na estrada, enfrentando uma rotina escorchante, onde revezávamos para passar os finais de semana com nossos filhos: numa semana, um de nós viajava para Salvador na quinta-feira e retornava no domingo para Irecê e na outra semana era o outro. Enquanto estávamos no interior, trabalhávamos com afinco, na tentativa de suprir as nossas ausências. Quando íamos para a capital, nos desdobrávamos para acolher as demandas de nossos filhos (que não eram poucas).

Muitas vezes, tivemos que envolver nossos pais idosos na equação, numa tentativa de amenizar o sofrimento das crias... Enfim, eu já não sabia mais o que fazer, já que não poderia me dividir em duas. Em meio ao caos que se tornara a minha vida, a vontade de estudar, de aprender e de ampliar os horizontes, em vez de arrefecer, ela cresceu  a ideia ficava piscando para mim, toda sedutora  apontando um caminho alternativo para me afastar um pouco dos problemas e olhar para eles em perspectiva.

Eis que surge a seleção do mestrado em Juazeiro. Falei a meu esposo que ia tentar para ver como era o processo, a fim de conhecer e ganhar experiência para tentar para valer depois em algum programa de Salvador, onde meu coração estava, junto com meus filhos. Escrevi o anteprojeto em um tempo recorde e cuidei de ir xerocopiar para poder colocar no correio. Quando estava na copiadora, encontrei com uma colega da faculdade de Letras que estava enviando o projeto dela para a seleção do Pós Crítica. Ela me perguntou se eu estaria participando dessa seleção também.

Até então, eu nem sequer tinha ouvido falar do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural. A minha colega disse que era uma pena eu não participar da seleção, porque o programa era a minha cara – ela acreditava que não daria mais tempo de eu me organizar, já que as inscrições se encerrariam no outro dia. Tomei aquilo como um desafio: era quinta-feira meio dia, eu trabalharia a tarde inteira desse dia e sexta-feira, até as 17:00, eu teria que enviar, pelos correios, o anteprojeto para a seleção do Mestrado em Crítica Cultural.

Não almocei nesse dia... Tratei de revirar a internet, atrás de informações sobre o Pós-Crítica, sobre as linhas de pesquisa, sobre os docentes. Dissequei o edital. Descobri que uma das linhas era bastante parecida com a que eu estava concorrendo em Juazeiro. Fiquei empolgada e fiz os meus dedos voarem sobre o teclado do computador, fazendo as alterações necessárias para adaptar o projeto. Depois de muita peleja, esbarrei nas laudas. Em Juazeiro, poderia ser até 12 laudas. Em Alagoinhas, o máximo eram 10 laudas. E eu nunca soube atalhar... No afã de realizar as adequações, em vez de 10, eu tinha mais de 12 laudas.

Essa quinta-feira se transformou em sexta-feira, sem que eu sequer pregasse os olhos. Em algum momento da madrugada, me obriguei a deitar, mas a mente continuou fervilhando. Retomei a labuta na sexta, antes mesmo do nascer do sol. Até a hora do almoço, fechei nas famigeradas 10 laudas (era o início da fase econômica de escrita – eu viria a descobrir que a academia não aprecia robustez de detalhes).

Meu projeto foi aprovado. Fui passando em cada uma das fases. Fui aprovada também na outra seleção. Abandonei o processo seletivo de Juazeiro. Meu coração já tinha outro dono  o PPG em Crítica Cultural. Passei todo o primeiro ano do mestrado na estrada, entre Irecê  Alagoinhas  Salvador. Lecionava, lecionava, lecionava; viajava, viajava, viajava; cuidava, cuidava, cuidava (dos outros); estudava, estudava, estudava; lia, relia, lia e relia: Giorgio Agamben, Guacira Louro, Silviano Santiago, Judith Butler, Spivak, bel hooks, Angela Davis, James Clifford (no original em inglês).

Li todos e cada um dos textos de todas as disciplinas. Não perdi aulas. Mas também nunca desliguei o celular – tinha filhos em situação de risco. Tive que interromper momentos de orientação porque um dos filhos estava em crise e eu tinha que voltar correndo para contenção de danos. Emagreci. Meu cabelo caiu. Minha pressão arterial foi parar nas alturas. Tive crises recorrentes de enxaqueca. Tive apagões de memória.

Viajei. Conheci pessoas. Fiz amizades para o resto da vida. Participei de eventos. Publiquei textos. Aprendi a trabalhar com revisão e edição de textos. Fui a motorista de muita gente, entre colegas e professores. Me apaixonei profundamente pelo curso e pelas pessoas que estavam à sua frente, na época. Ainda tive tempo para um vinho e uma comidinha com os pós-críticos nas quintas pedagorógicas.

Olhando em retrospectiva, posso afirmar, com segurança, que esse processo duro de estudos, com uma rotina enlouquecedora pelo volume de leituras que tinha que fazer e pela quantidade considerável de atividades a desenvolver, foi o que me salvou de enlouquecer. Os momentos roubados de prosa com os colegas do curso, as reuniões com o grupo de pesquisa, o envolvimento com a revista do programa, a Grau Zero (sim, eu arranjei espaço para essa paixão também), ajudaram a me manter sã.

O professor Osmar, na época coordenador do Pós-Crítica, foi muito receptivo. A Professora Jailma, minha orientadora, foi muito tudo em minha vida acadêmica e, por conseguinte, na esfera pessoal também: foi amiga, foi paciente, foi compreensiva e foi dura, quando necessário. Ela iluminou meus olhos para uma infinidade de novas coisas e também abriu seu coração para receber o que eu tinha para oferecer. Foram trocas proveitosas e significativas.

Tirei notas ruins. Algumas boas. Escrevi muito. Reescrevi ainda mais. Produzi uma dissertação de 166 páginas. Os membros da minha banca são dois queridos, que me ajudaram muitíssimo: Professora Maria Helena Besnosik (UEFS) e Professor Carlos Magno Gomes, avaliador interno naquela época; hoje meu orientador no doutorado da Universidade Federal de Sergipe.

Pois é, o PPG em Crítica Cultural me fez crescer em todos os sentidos, inclusive no salário, algum tempo após a conclusão. Fui para o doutorado bastante preparada. Fui aprovada em 1º lugar em Literatura e em 2º lugar geral, já que um concorrente de Linguística fez uma pontuação maior que eu. Nunca tirei menos que A em todas as disciplinas e integralizei meus créditos logo no primeiro ano (2018).

Com a vida pessoal mais equilibrada e de licença do trabalho desde o início do doutoramento (ganhei na justiça), estou terminando de ministrar um curso de extensão aqui em Irecê, para mulheres sertanejas, no qual estão sendo realizadas leituras e discussões de obras de escritoras negras e/ou nordestinas e têm sido muito gratificantes  um presente. Estou trabalhando em leituras complementares e na escrita da tese, na preparação para qualificar até o final desse ano, até início de 2020. Possivelmente, concluirei o doutorado em 3 anos, em vez de 4, já que estou bastante adiantada. E feliz. O Pós-Crítica fez uma enorme diferença em minha vida.

Quero, em um futuro não muito distante, se o atual cenário político permitir, ingressar como professora da UNEB. Sou devedora dessa Instituição. Tenho muito o que retribuir, pois foi nessa universidade multicampi que cursei duas graduações, uma pós-graduação latu sensu e o mestrado em Crítica Cultural. Este último alargou meus horizontes de expectativa, quebrando barreiras de preconceitos os quais eu nem sabia que possuía e possibilitando o meu reconhecimento enquanto mulher trabalhadora, enquanto educadora, enquanto sertaneja, parda e oriunda de classes subalternas.

Aprendi, com o Pós-Crítica que, além de uma mãe que ama e luta por seus filhos e alunos, eu posso ser uma mulher que luta com e por outras mulheres; que posso ser uma mensageira para outras mães; que posso ser exemplo para meus filhos e meus alunos; que posso ser mais interessante para meu marido, porque vivo cheia de assunto e de novidades (ele se orgulha muito da pessoa que me tornei).

Amo muito o Pós-Crítica e é um prazer e uma honra fazer parte da história dos seus 10 anos. Ficou um pouco de cada pós-crítico em mim, daqueles que passaram pela minha vida. Abraços afetuosos a todos. Amo vocês.

Seidel, eu escrevo demais. Mas você sabe disso, pois trabalhamos lado a lado na Fábrica de Letras  aprendi muito com você. Aprendi com Ari, Com Wô, Com Félix, com Paulo. Foi muito bom estar com vocês. Até breve.


Minha Guerrilha Cultural é com a Palavra


Minha Guerrilha Cultural é com a Palavra

Prof. Dr. Paulo César García
(Docente do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural)

“Revolução não é um evento único” (Audre Lorde).

Parafraseando Audre Lorde: Revolução é um evento múltiplo reportado pela ação da palavra. Com ela aciono a revolu[a]ção frente aos muitos e muitas dos/das predecessores autores e autoras da literatura, da crítica literária, de pensadores que me aproximo para buscar diálogos fecundos. Com eles e elas, aciono poder disseminar linguagens, sem ordens, sem o ordinário signo, sem cêntricos sentidos.

Onde falo aqui? Sem o gesto de [se/me] aprisionar como Professor e Pesquisador, não [se/me] apequenando ao nivelamento e ausência de massa crítica e, seguindo Nietzsche, mesmo que sugira em seus textos a noção de o homem aprisionar a vida, faz-se preciso livrar-se do homem para liberar a vida, com “a resistência”, invocando “o poder da vida, bem como de suas múltiplas forças” (PELBART, 2000, p. 33).

Aqui, o que falo e como falo bate à porta o poder de resistências com a força de [se/me] subjetivar agenciada pela política e vida agora coesas, sem acúmulos de controle, servidão, subjunção. Por onde a crítica cultural bate à porta? Onde a força subjetiva torna-se potente, tendo em vista a revolu[a]ção entre pessoas, entre docentes e discentes do Pós-Crítica?

Trato de ser capaz de produzir um tecido que dobre as diferenças, estando estas possíveis para pensar as operantes formas de expressar a si, de expressar sem polaridades e em lugares dos possíveis retratos da vida e de sujeitos. Proporciona-me adentrar no habitat de conhecimentos onde “ondas, fluxos, uma multiplicidade de componentes fluidos, turbulências moleculares, flutuações, evanescências” (PELBART, 2000, p. 32) criam relações a si, relações de prazeres, relações de afetos que se redobram na singularidade da produção de subjetividades.

O ato de reabilitar o conhecimento pelas portas da crítica cultural, institucionalmente programado a formar sujeitos a se reinventar pelo suporte de pesquisas, é o modo de singularizar, de me singularizar no exercício de pesquisar e estar Pesquisador. Eis o requisito de a relação com o outro, melhor, o que dobra e redobra na instância da linguagem que, desvelada por agentes sempre curvados pela dobra e desdobra deleuziana, move modos de refletir, modos de existir.

Daí o conjunto de forças que se deslocam e se disseminam em imagens, textos, signos, palavras, na flexão subjetiva que se cria na força ativa que se ondula no espaço e se recria, tornado-[me/se] sujeitos de saberes, com poderes e vida, potência e existências brotando. Assim, todas e todos se afetam, criam relações alimentadas por desejos, distantes e próximas, cujas práticas de si se novelam numa poética que ecoa na propriedade do óbvio e do clausulo, da evidência e do inesperado, do oculto e dos estranhamentos, do real e do imaginário. Entre todas as dobras da linguagem, a subjetividade se reinventa, se produz na zona do fora com os experimentos das presenças e ausências exteriores.

Minha Guerrilha Cultural é com a palavra. Assim me dobro, vergo forças com palavras-chave que apresento — corpos e subjetividades, sexualidades dissidentes, identidades de gêneros, queer, literatura, crítica literária, ficção, poesia, dramaturgia, outras textualidades, teoria literária, literatura comparada, letras, crítica cultural — daí exteriorizo saberes, autorizo outras linguagens sem reinos instituídos. É por onde me permito e abro as portas para outras falas potentes, possíveis, compreensíveis.

Este relato presta e honra homenagem aos dez anos do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural — mestrado e, agora em 2019, doutorado. No próximo ano, dez anos fará em que ocupo o meu lugar enquanto crítico cultural e comprometido como Professor e Pesquisador. Trabalho que objetivo formar Mestres e Mestras em crítica cultural e que virá na tarefa de formar outras e outros, também, Doutoras e Doutores que procurem nutrir com os estudos de gêneros e de sexualidades no espaço da literatura e com demais estudos da crítica cultural e literária, causando impactos via a difusão de saberes aí locados, saberes descolonizados com posições e posturas em grau zero e para além das margens.

É preciso resistir, é preciso criar. Reinvenções sempre! Leituras são preciso, Literatura a cada passo de uma revolu[a]ção, porque Letras, Arte e Cultura alimentam a alma e proporcionam se integrar e se reintegrar ao meio social, conduzindo às reflexões de si, ao conhecimento de si, às formas de existir, promovendo direitos universais a ser Mulher, Homem, Preta, Preto, Rico ou Pobre, Travestis ou MulherTrans, HomemTrans ou Queer/Cuir, Lésbica Preta ou não, Pessoas não Binárias, Gays e Gays Pretos, Pretas, Efeminadas, Pessoas Intersexos e mais quem não caibam nas expressões de categorias de gêneros normativas e de raiz biológica.

A cada passo, eventos múltiplos, desnormatizados, desregulados, porque os Corpos devem ser destrancados, livres e as Subjetividades validadas na tarefa de arar, lavrar testemunhos e experiências menos segregadas e mais espelhadas em suas formas dissidentes de agir, de pensar e de vibrar nas e pelas diferenças.

Crítica Cultural para quê? Revolu[a]ção!

Referências:
PELBART, Peter Pál. Subjetividade contemporânea. Políticas de subjetividade. In: Vertigem por um fio. Políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras, 2000, p. 9 a 28.
DELEUZE, Gilles. Entrevista sobre O anti-édipo (com Félix Guattati). In: Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.
LORDE, Audre. Textos escolhidos. Disponível em: <difusionfeminista@riseup.net>. Acesso em: 10 jul. 2015.